Não era nada demais, as horas
passavam devagar demais, dava mesmo para saborear o céu com as estrelas
ofuscadas pelas nuvens.
Ainda assim, não era um dia tão
incomum, parecia na verdade algo já realizado tantas outras vezes. Olhares eram
trocados com a sensação de já terem ocorridos muitos outros num espaço
inexistente.
Mas, era mesmo primeira vez que
apreciavam o céu juntos, mesmo com as nuvens rasas que geralmente ocorrem nas
noites frias. O vinho era mesmo ruim, mas o sabor não era incomum, era também
aquele sabor reconfortante de que o simples é tão ideal e delicioso quanto o
requintado.
Ociosamente pensavam em utopias,
como frases jogadas ao vento, mas com valores super carregados de ideias, de moralidades,
de éticas e princípios. Próprio de pessoas que se questionam sobre as coisas.
Mesmo temendo um dia não pirar em suas próprias ideias, mesmo com aquele medo
de se afogar em suas próprias loucuras, era necessário repensar, tomar mais
vinho e idealizar conceitos, talvez até desejos. Quem saberia dizer?
Suas palavras já ecoavam, o
raciocínio estava cada vez mais lento, uma alegria sem muita razão, sem explicação
aparente. Seria o vinho? Se fosse um vinho melhor estaria tudo tão engraçado?
Havia
o calor, isso dava mesmo pra sentir, mesmo no sereno daquela noite. Vinho ruim,
sabores distintos num mesmo líquido. Seria isso possível? O que eram mesmo os
significados daquelas palavras que estavam sendo ditas? Já não dava pra saber,
apenas sorria então, como quem concorda, fazendo de conta que está raciocinando
em conjunto naquele momento.
Relaxa, sorri, toma mais um gole. Não acabaria
nunca o restante dessa garrafa? Não tinha copo para tomar o vinho? Achava tão
vulgar tomar algo na própria garrafa, mas isso já nem importava mais... Se
fosse um copo, talvez estivesse dividindo o copo, não gostava também de alguém
tomando algo no mesmo copo.
Frescuras
essas que não estavam mesmo sendo seguidas à risca, pura moralidade social. Existe
mesmo moral social na questão do individualismo em relação ao copo que não gostava
de dividir?
Olhando para os
lados, ainda com um sorriso espontâneo, mesmo sem motivo, olha para os pés,
para as mãos, que bom! Ainda dava para
distinguir os pés das suas mãos.
_ Pô! Surreal!
Solta uma
gargalhada, pensa no nome completo. Puxa! Quando se repete o nome completo
existe algo ocorrendo: o efeito do vinho estava realmente muito efetivo nas
mudanças mentais!
As
nuvens pareciam mais densas, as estrelas estavam menos visíveis, o céu havia
mesmo se distanciado. Ainda escutando divagações, num momento de iluminação, raciocina
novamente em conjunto, era como se tudo estivesse claro.
Nossa! Como não
havia percebido algo tão óbvio? É claro que Montesquieu teve uma visão
romântica sobre o Iluminismo, assim como Adam Smith além de romântico, foi ingênuo
quando afirmou que o individualismo é o princípio de uma bem feitoria que iria
consequentemente alcançar o bem-comum.
_Poderia mesmo se
alcançar algo bom para todo um conjunto, partindo de uma ação puramente
individual e egoísta?
Ingênuos,
visionários? Talvez fossem ideológicos e românticos demais.
Eram
ambos, enquanto conversavam, ideológicos e românticos demais? Mudariam mesmo
algo? Uma pesquisa acadêmica responderia algo sobre isso? E se fossem mais ao
fundo e realizassem a relação de fatos históricos com o desenvolvimento
religioso da humanidade?
Não
era loucura, era algo real, extenso e complexo demais. Sabiam também, que não
era uma noite densa dessa com o céu já tão distante, que tudo seria tão bem
esclarecido.
Na verdade não era
nada demais. Nada que fosse efetivo demais. Ainda bem que as horas passavam naquele
instante devagar demais, pois o vinho havia ficado realmente delicioso demais.
O vinho já não era
tão ruim assim...
.
..
...
....
.....
.....
O vinho era
realmente bom, naquele espaço, tempo e dimensão.
Lounge – Maria Gadú
Vamos prum lounge
Beber um vinho safra ruim
E conversar sobre a tv
Vamos pra longe
Sem se tocar os olhos vão
Se encontrar e se perder
Eu e você assim de perto dá
Pra eu me perder de vez nas tuas
tintas
Me dê uma noite, um pouco da manhã
Só pra eu sacar se os olhos mudam de cor
Vamos entrar
A minha casa não é quente
Trago um vermelho pra esquentar
Vamos suar
Com o veneno da serpente
Que eu roubei pra te picar
Vamos
prum lounge..