21/03/12

O escudo da alma


 Nas comunicações mais secretas ele dizia a ela que em outra vida juntos iriam ficar. Lendo aquelas palavras ela se imaginava tão distante o quanto poderia correr com suas próprias pernas, fugindo rapidamente daqueles braços que na distância tentavam  envolvê-la.
Não fazia mais sentido querer estar junto, a breve distância era na realidade um buraco negro em seu próprio coração. Não haveria mais saciação, o seu apetite era excessivo aos sabores que ele poderia lhe oferecer.
Não haveriam mais manhãs que juntos acordariam com a sede de se beijar, a intesidade estava mesmo perdida. A aproximação era irreal, longe um do outro, ele e ela conseguiam se elogiar, se admirar. Mas quando qualquer aproximação ocorria nenhum significado era transmitido. A falta da química dos olhares que já não se buscavam com fome.
Não se devoravam mais, não esgotavam mais seus corpos levando a pura exaustão que trazia à tona a felicidade momentânea. Nomes já não eram ditos, frases morriam na própria inexistência, dizer ou não, era realmente a mesma coisa.
Era o escudo da alma, a proteção a favor da ira, da própria defesa exposta de maneira selvagem. Não exsitia mais confiança. Era uma guerra em silêncio, instintiva, apenas um se salvaria por completo. E nessa batalha ela não estava mesmo pronta para perder...
A frieza era sua companheira, sua aliada. Não era um devaneio, era o próprio corpo gritando a liberdade daquela ausência de sabores, tudo que se esperava era o retorno explosivo de uma nova fome.

O tempo ocioso e o vinho ruim



                 Não era nada demais, as horas passavam devagar demais, dava mesmo para saborear o céu com as estrelas ofuscadas pelas nuvens.

                Ainda assim, não era um dia tão incomum, parecia na verdade algo já realizado tantas outras vezes. Olhares eram trocados com a sensação de já terem ocorridos muitos outros num espaço inexistente.

                Mas, era mesmo primeira vez que apreciavam o céu juntos, mesmo com as nuvens rasas que geralmente ocorrem nas noites frias. O vinho era mesmo ruim, mas o sabor não era incomum, era também aquele sabor reconfortante de que o simples é tão ideal e delicioso quanto o requintado.

                Ociosamente pensavam em utopias, como frases jogadas ao vento, mas com valores super carregados de ideias, de moralidades, de éticas e princípios. Próprio de pessoas que se questionam sobre as coisas. Mesmo temendo um dia não pirar em suas próprias ideias, mesmo com aquele medo de se afogar em suas próprias loucuras, era necessário repensar, tomar mais vinho e idealizar conceitos, talvez até desejos. Quem saberia dizer?

                Suas palavras já ecoavam, o raciocínio estava cada vez mais lento, uma alegria sem muita razão, sem explicação aparente. Seria o vinho? Se fosse um vinho melhor estaria tudo tão engraçado?

                Havia o calor, isso dava mesmo pra sentir, mesmo no sereno daquela noite. Vinho ruim, sabores distintos num mesmo líquido. Seria isso possível? O que eram mesmo os significados daquelas palavras que estavam sendo ditas? Já não dava pra saber, apenas sorria então, como quem concorda, fazendo de conta que está raciocinando em conjunto naquele momento.

 Relaxa, sorri, toma mais um gole. Não acabaria nunca o restante dessa garrafa? Não tinha copo para tomar o vinho? Achava tão vulgar tomar algo na própria garrafa, mas isso já nem importava mais... Se fosse um copo, talvez estivesse dividindo o copo, não gostava também de alguém tomando algo no mesmo copo.

                Frescuras essas que não estavam mesmo sendo seguidas à risca, pura moralidade social. Existe mesmo moral social na questão do individualismo em relação ao copo que não gostava de dividir?

Olhando para os lados, ainda com um sorriso espontâneo, mesmo sem motivo, olha para os pés, para as mãos, que bom!  Ainda dava para distinguir os pés das suas mãos.

_ Pô! Surreal!

Solta uma gargalhada, pensa no nome completo. Puxa! Quando se repete o nome completo existe algo ocorrendo: o efeito do vinho estava realmente muito efetivo nas mudanças mentais!

                As nuvens pareciam mais densas, as estrelas estavam menos visíveis, o céu havia mesmo se distanciado. Ainda escutando divagações, num momento de iluminação, raciocina novamente em conjunto, era como se tudo estivesse claro.

Nossa! Como não havia percebido algo tão óbvio? É claro que Montesquieu teve uma visão romântica sobre o Iluminismo, assim como Adam Smith além de romântico, foi ingênuo quando afirmou que o individualismo é o princípio de uma bem feitoria que iria consequentemente alcançar o bem-comum.

_Poderia mesmo se alcançar algo bom para todo um conjunto, partindo de uma ação puramente individual e egoísta?

                Ingênuos, visionários? Talvez fossem ideológicos e românticos demais.

                Eram ambos, enquanto conversavam, ideológicos e românticos demais? Mudariam mesmo algo? Uma pesquisa acadêmica responderia algo sobre isso? E se fossem mais ao fundo e realizassem a relação de fatos históricos com o desenvolvimento religioso da humanidade?

                Não era loucura, era algo real, extenso e complexo demais. Sabiam também, que não era uma noite densa dessa com o céu já tão distante, que tudo seria tão bem esclarecido.

Na verdade não era nada demais. Nada que fosse efetivo demais. Ainda bem que as horas passavam naquele instante devagar demais, pois o vinho havia ficado realmente delicioso demais.

O vinho já não era tão ruim assim...

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O vinho era realmente bom, naquele espaço, tempo e dimensão.

Lounge – Maria Gadú
Vamos prum lounge
Beber um vinho safra ruim
E conversar sobre a tv
Vamos pra longe
Sem se tocar os olhos vão
Se encontrar e se perder

Eu e você assim de perto dá
Pra eu me perder de vez nas tuas tintas
Me dê uma noite, um pouco da manhã
Só pra eu sacar se os olhos mudam de cor
Vamos entrar
A minha casa não é quente
Trago um vermelho pra esquentar
Vamos suar
Com o veneno da serpente
Que eu roubei pra te picar
Vamos prum lounge..

01/03/12

São coisas da vida e você não pode julgar

Particular, era essa palavra que predominava.

_ O problema é comigo! Disse ele de maneira formal.

_ Nossa que clichê. Ela pensou imediatamente ao escutar isso.

                Ela procurava os sentidos daquelas situações pra entender o porquê havia sido tão julgada. Afinal, havia ela se iludido ou deixado se levar demais?

                No fundo isso não importava saber, tudo o que ocorria e toda a distância tomada por ambos era na verdade um desinteresse em conjunto.

                A decisão estava tomada, o fim havia sido dito em duas frases:

_ Não suma! E não bata a porta do carro! Disse ele.

_ Eu não vou sumir, e não se preocupe não vou bater a sua porta! Disse ela muito ofendida com essa pequena observação materialista.

                Nada mais que ligava os dois importava, pois tudo o que ocorreu eram coisas do mundo que realmente não cabia a ele julgá-la. No final ela havia sido resumida em apenas uma ação: ter batido um dia a porta do seu carro.